Afaste-se


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Afaste-se é um projeto de intervenção que vem sendo desenvolvido desde 2004. É resultado de um processo de pesquisa sobre sistemas de vigilância e segurança em condomínios de edifícios residenciais da cidade de São Paulo, e busca refletir sobre as relações sociais contemporâneas em que predomina o medo “do outro”, “do diferente”, o isolamento e a incomunicabilidade.

Deste processo resultou uma investigação fotográfica realizada nos meses de novembro e dezembro dos anos 2004 e 2005, que teve como objeto as decorações natalinas instaladas nas áreas externas destes condomínios e que gerou, em 2006, o luminoso Afaste-se.


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O projeto prevê a instalação do objeto luminoso em espaços “públicos” através de uma ação performática, e pressupõe a participação de outros indivíduos, que disponibilizam as fachadas de suas casas para a intervenção.

Em dezembro de 2006 o luminoso foi instalado em fachadas de casas e edifícios residenciais. Estas ações foram documentadas em foto e vídeo, onde se registrou tanto a instalação do luminoso nos diversos espaços, quanto depoimentos dos participantes sobre suas motivações para a colaboração na proposta e suas impressões sobre as questões de segurança e vigilância, e sobre como estas se refletem na configuração do espaço público e das relações sociais.


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[Felipe Gottschall, colaborador do projeto]


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O objetivo do projeto, considerado em todas as suas etapas de desenvolvimento, é trazer à tona as questões de segurança e de vigilância, e provocar uma reflexão sobre como a utilização de dispositivos de proteção do indivíduo e da propriedade se refletem na constituição do espaço público e das relações sociais nas grandes cidades, e cria “ilhas de isolamento” onde não há lugar para a comunicação e para a troca.

A “necessidade” de proteção notadamente afasta as pessoas, impede o contato entre indivíduos e a apropriação do espaço público como local possível para tais práticas, tão necessárias para o desenvolvimento de uma sociedade, inclusive, mais segura. O medo está diretamente ligado ao abandono do espaço público pela sociedade, o que por sua vez gera, alimenta, a sensação crescente de estranhamento e repulsa que sentimos “do outro” e uma conseqüente incomunicabilidade.

Devemos perceber que este processo de constante isolamento “entre iguais” e o abandono do espaço público são também causas de uma tensão social que gera a violência, antes de serem conseqüências da violência experienciada (ou imaginada). E é importante perguntar: O medo que sentimos é alimentado por uma violência “real” ou é, também, impulsionado por um mercado econômico e cultural de que participam empresas de vigilância e segurança e veículos de mídia e de publicidade?


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“Porque não desejar a todos um Feliz Natal, Boas Festas?

Se estamos seguros, mesmo que amedrontados?

Se estamos vigiando, e sendo vigiados, mesmo que trancados?

Se estamos sorrindo, mesmo que isolados?

Se estamos consumindo, mesmo que enlouquecendo?

Porque desejamos Feliz Natal, se queremos dizer

Afaste-se?”

O desenvolvimento urbanístico da cidade de São Paulo vem se caracterizando pela construção de condomínios de edifícios residenciais equipados com uma diversidade de dispositivos de segurança e de vigilância. Circuitos internos e externos de vídeo, guaritas com vidros escuros blindados, muros altos e grades, cercas elétricas, refletores de luz que acendem automaticamente quando pessoas se aproximam dos portões, além de seguranças armados, são alguns dos dispositivos utilizados.

Segundo uma matéria jornalística, “Reflexo direto do medo da população diante da criminalidade nos grandes centros urbanos, o mercado de segurança eletrônica movimenta 1,1 bilhão de reais por ano no Brasil e 440 milhões de reais na capital paulista. Ao todo, são 1.500 empresas de comércio, instalação e monitoramento responsáveis por negócios que crescem ao ritmo de 11% ao ano”, ao que segue a divulgação de câmeras de segurança, com preços dos equipamentos e suas características.

Refletir sobre esta “realidade de mercado”, sobre o que movimenta o consumo de sistemas de vigilância e segurança, ou seja, o medo do outro, o medo por si, pela vida e pela propriedade, que leva o sujeito a se privar do contato com a sociedade e com o espaço público e a encarcerar a si mesmo nestas “ilhas de isolamento” que são os condomínios de edifícios, é uma das justificativas do trabalho.


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Este desejo de isolamento, alimentado por veículos de comunicação e de mídia que propagam cotidianamente “o aumento da criminalidade” e a “necessidade de proteção”, se reflete no mercado imobiliário que investe em projetos de “condomínios de moradia, lazer e serviços”, onde se oferece coisas como piscinas, quadras, academias e “spas”, pistas de skate, “garage-band”, bares, restaurantes e outras comodidades que farão com que “você e sua família não precisem sair de casa”. O que quer dizer também “você só deve conviver com os seus” ou “tenha medo, fique longe do diferente”, “afaste-se”.

O que alimenta o mercado de segurança? O que provoca o medo? A violência ou a idéia da violência?

Se a violência existe de fato, não devemos discutir sua causa e procurar soluções, ao invés de estabelecer mecanismos de auto-proteção e isolamento que apenas tornam explícitas a diferença e a impossibilidade de uma co-existência pacífica, onde o espaço público possa ser o palco da construção de um futuro desejável de colaboração social?

Afaste-se aproxima as pessoas da percepção da incomunicabilidade e da inviabilidade das relações sociais que vêm se estabelecendo no cotidiano das grandes cidades, onde a violência é um dos principais desafios a serem enfrentados pelo poder público e pela sociedade civil.

A violência não é apenas uma questão de “segurança pública”, mas um reflexo das dinâmicas sociais estabelecidas, que devem urgentemente serem revistas, reavaliadas e transformadas em suas esferas macro e micro-políticas.


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Colaboradores em 2006:
Polart,
Felipe Gottschall, Ricardo Ramalho (Galeria Favo), Milena Durante e Caio Fazolin

Parceiro na realização das ações e imagens em 2006:
Thiago Benicchio

3 Respostas to “Afaste-se”

  1. luddista Says:

    E vamos ver se nesse ano colocamos na Paulista. Tem um Ho Ho Ho aqui: http://apocalipsemotorizado.net/2007/11/29/jingle-bells/

  2. fernanda Says:

    Olá! Sou professora de design grafico e gostaria de mostrar o seu trabalho em uma aula q falarei sobre intervenções urbanas. Achei excelente! Meus parabéns.

    Obrigada

    Fernanda

  3. Prensada Says:

    bárbaro !

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