Archive for the ‘Textos e Publicações’ Category

Na Borda – livro online!

fevereiro 8, 2013

Agora você pode conferir o projeto Na Borda, em livro disponível online!

Na Borda, nove coletivos, uma cidade.

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A Revolta dos Burros, Nova Pasta / foto de Marcos Vilas Boas

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Teto de Vidro, Esqueleto Coletivo / foto: Antonio Brasiliano

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Asas do Desejo

agosto 31, 2010

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Asas do Desejo, meu novo blog, projeto sobre o feminino nascendo.

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As vítimas da marginal

julho 21, 2009

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Nova Marginal – capítulo 1 é um vídeo que mostra as primeiras vítimas visíveis do projeto de ampliação da Marginal Tietê, em São Paulo. Um pequeno alerta para comover os corações e captar a atenção dos olhares mais desatentos para a dimensão e o impacto dessa obra que custará, entre outras coisas, “apenas” 559 árvores como a mostrada no vídeo sendo serrada.

“Haverá compensações ambientais” é a resposta corrente. “Sombra, ar mais puro e fresco, qualidade de vida. As obras da Nova Marginal já começaram”, assim começa o vídeo do governo do estado, que segue: “O projeto que vai ajudar a melhorar o trânsito na capital, criando três novas faixas em cada sentido da via, também vai deixar a cidade mais verde! Com a conclusão das obras São Paulo ganhará o maior parque linear do mundo, uma ciclovia e mais de 150 mil árvores”.

Essas compensações ambientais, segundo o vídeo, representam apenas 6% do valor das obras, estimado em 1 bilhão e 300 milhões de reais, investidos essencialmente pelo governo do estado e, em bem menor parte, pelas concessionárias que administram as rodovias beneficiadas.

Projeto de alcance nacional, que integra vias federais, estaduais e municipais, e que conta com a adesão irrestrita do governo municipal, que inclusive emitiu a Análise do Impacto Ambiental favorável ao projeto quando, segundo parecer técnico da ABAP e do IAB-SP, “Neste caso, para a realização desta obra, demanda-se uma Análise de Impacto pelo menos em nível metropolitano, devido às conseqüências da mesma no entorno”. “Uma obra estadual de conexão entre estradas, dentro da Cidade de São Paulo, a qual mereceria necessariamente um EIA-RIMA de caráter estadual, vinculado pelo menos a um plano de circulação de toda a metrópole, em todos os níveis (inclusive ferroviário e fluvial) e sua conexão com as estradas estaduais e federais que chegam ou passam por São Paulo, considerando-se inclusive o impacto do rodo-anel nos próximos quinze a vinte anos, após a sua inauguração completa.”

Essa é apenas uma das questões a serem consideradas sobre a “Nova Marginal” e essa moda de deixar tudo novo, dar vida às coisas muito vivas que alguns consideram mortas, obstáculos ao progresso público-privado:

As árvores que estão sendo arrancadas, o solo que está sendo impermeabilizado, os pássaros e outros seres vivos que estão perdendo a morada (e a vida) para o asfalto e o automóvel passarem, não são substituíveis. Não há “compensação” real para esses danos, o que se tira dali, o que faltará ali, a carência de ar, de terra, de paisagem e de vida que se instalará ali, não poderá ser remediada.

Talvez para abafar as críticas ao projeto, promete-se em um primeiro momento 83 mil novas árvores, metade a ser plantada no Parque Ecológico do Tietê, e a outra metade nos bairros do entorno da obra “contribuindo para reduzir as ilhas de calor e melhorar os índices de umidade relativa do ar”, segundo o site do governo, em 22 de junho. Mas quem vem participando de debates, pesquisando, perguntando, não viu nada, nenhum estudo ou projeto que comprove tal solução em prática ou mesmo intenção. Onde seriam plantadas essas árvores, nesses bairros já tão adensados e impermeabilizados? E quantas dessas árvores teriam condições adequadas para sobreviver?

Além disso, quem garante as 40 mil árvores no Parque Tietê? Há espaço? Quem prova e quem fiscaliza? E quantas pequenas mudas podem compensar a vida de 559 árvores (número oficial) adultas, idosas, gigantes?

Mas as justificativas mudam segundo as necessidades e as oportunidades, e agora serão 150 mil árvores plantadas no “maior parque linear do mundo”. Isso significa que na marginal, nos 23 km onde haverá ampliação de pistas e nos bairros do entorno, serão plantadas agora apenas 10 mil árvores. E é importante notar que o Parque Ecológico do Tietê, assim como o parque linear Várzeas do Tietê, estão algo distantes da obra e dos bairros próximos a ela, e não servirão de forma alguma “para reduzir as ilhas de calor e melhorar os índices de umidade relativa do ar” da área afetada. O parque linear deve ser entendido como projeto independente da obra da marginal e não pode ser considerado como compensação pelos danos causados nas áreas em que ela interfere.

Segundo Jorge Wilheim “Haverá, contudo, uma redução de 19 hectares de área atualmente permeável, com a perda de 116.235 mudas e sua compensação está sendo assim proposta: metade encaixada ao longo da Marginal (sic) e nos bairros limítrofes; o valor do restante financiará 80% da Estrada da Várzea projetada para a APA do Tietê. Em outros termos: esta região, a de mais alta temperatura no solo, será desprovida do que restava de vegetação e este fundo de vale não contará mais com sua pequena área permeável contígua”.

No mesmo texto, o arquiteto e urbanista mostra como a opção por esse projeto desconsidera uma série de determinações do Plano Diretor Estratégico (PDE) vigente, que visam melhorias na estrutura viária e que foram pensadas para atender a cidade como um todo, para solucionar seus desafios de forma integrada e que, nesse caso, ao invés de propor simplesmente a ampliação da capacidade de fluxo da marginal propõe, ao contrário, reduzir o fluxo de veículos da marginal com a criação de sistemas viários que integram diretamente os bairros próximos e que facilitam nessas áreas a circulação de veículos.

Além de estúpida do ponto de vista ambiental e do ponto de vista mesmo da melhoria da malha viária da cidade, a opção pela Nova Marginal demonstra o absoluto desrespeito às determinações do PDE, lei que é o “instrumento global e estratégico da política de desenvolvimento urbano, determinante para todos os agentes públicos e privados que atuam no Município”.

Total desrespeito à lei e aos atores sociais envolvidos em sua construção. O projeto ficou praticamente em sigilo, foi apresentado (não discutido) em uma única audiência pública, da qual ninguém ficou sabendo, e realmente tornado público simultaneamente ao início das obras, para não dar tempo ao surgimento de manifestações contrárias ao projeto como essa do GT Patrimônio Histórico do IAB-SP, essa da ABAP – Associação Brasileira de Arquitetos ou essa do Pedal Verde.

A obra caminha a uma velocidade notável, esbanjando eficiência, e evidentemente atendendo aos anseios eleitorais dos envolvidos, já que ainda não foi possível colher os louros pela realização total do rodo-anel, obra inacabada que também promete eliminar o caos generalizado do trânsito de veículos nas marginais e na cidade, e cujo impacto ambiental e social amplo e alarmante não será aqui discutido.

Mas o que se esconde por trás disso tudo é na verdade o que há de mais preocupante, perverso e ameaçador, e que deveria ser amplamente debatido: a toxicodependência, a cultura, a sociedade do automóvel.

Não nos cansamos de construir avenidas, estradas e pontes sobre nossas cabeças, de despejar a cada dia cerca de mil novos automóveis particulares nas ruas da cidade, de impermeabilizar o solo, de esconder a terra e os rios sob túmulos de asfalto, de chamar montanhas de ladeiras, subidas e descidas, de travar guerras devastadoras em todo o mundo por petróleo e assim por diante. Há um imenso equívoco do ponto de vista sócio-ambiental em nossa opção pelo automóvel, não é possível continuar assim, isso não se sustenta, pois não há espaço, não há recursos infinitos. Temos que decidir imediatamente: vamos deixar o automóvel destruir nosso meio ambiente, nossas vidas? Tomar todos os espaços, confinar e segregar, enlouquecer toda a gente?

Dizem que o congestionamento final em São Paulo não tarda, teremos que esperar até lá para perceber o erro e buscar soluções alternativas como transporte público de qualidade e acessível, integrado a uma infra-estrutura cicloviária abrangente?

Quando vamos largar nossos automóveis individuais em casa, andar mais a pé, usar (e exigir) mais transporte público, andar de bicicleta, utilizá-la e respeitá-la como veículo que é, prevista no Código de Trânsito Brasileiro? Quando vamos cuidar e usar os espaços públicos para viver, encontrar pessoas e interagir, restringindo, a cada dia, o seu uso pelo automóvel?

Na contramão do mundo, aqui não se investe em transporte público acessível e de qualidade, não se investe em infra-estrutura cicloviária, tampouco em educar os motoristas para que respeitem a vida de pedestres e ciclistas. Não: constroem em São Paulo ciclovias confinadas em parques, como essa do Várzeas do Tietê, e continuam fazendo obras viárias sem ciclovias, proibidas para pedestres e pouco acessíveis ao transporte público, como a Ponte Estaiada e a própria Nova Marginal, projeto de e para poucos, do qual somos todos vítimas.

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Mais sobre manifestações e ações diretas contra a ampliação da Marginal Tietê: [1] [2] [3]

“Não me liberte – Eu cuido disso”

julho 14, 2009

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Trecho de A Alegria da Revolução, de Ken Knabb (capítulo 2: Excitação preliminar)

Tradução de Railton Sousa Guedes do original The Joy of Revolution

Dica de Moésio Rebouças / Agência de Notícias Anarquistas – ANA

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Inconvenientes do moralismo e do extremismo simplista

Muitos destes absurdos derivam da falsa assunção de que ser radical implica viver conforme algum “princípio” moral — como se ninguém pudesse agir pacificamente sem ser um pacifista total, ou defender a abolição do capitalismo sem desfazer-se de todo seu dinheiro. A maioria das pessoas tem demasiado sentido comum para seguir realmente estes ideais simplistas, mas se sentem com freqüência vagamente culpados por não fazê-lo. Esta culpabilidade lhes paralisa e lhes faz mais susceptíveis à chantagem dos manipuladores esquerdistas (que nos dizem que se não temos a coragem de nos sacrificar, devemos apoiar acríticamente aqueles que o fazem). Ou tratam de reprimir sua culpa denegrindo a outros que parecem mais comprometidos: um trabalhador manual pode orgulhar-se de não vender-se mentalmente como um professor; que quiçá se sente superior a um publicitário; que pode por sua vez menosprezar a alguém que trabalha na industria de armamento

Converter problemas sociais em questões morais pessoais distrai a atenção de sua solução potencial. Tentar mudar as condições sociais mediante a caridade é como tentar elevar o nível do mar derramando caixas de água no oceano. Se alguém logra algum bem mediante ações altruístas, confiar nelas como estratégia geral é fútil porque sempre serão a exceção. É natural que a maior parte das pessoas considera antes seus próprios interesses aos interesses de seu próximo. Um dos méritos dos situacionistas foi haver superado as invocações esquerdistas da culpa e do auto-sacrificio destacando que a primeira causa para fazer uma revolução somos nos mesmos.

“Ir ao povo” para “servi-lo”, “organiza-lo”, “radicaliza-lo” conduz normalmente à manipulação e resulta com freqüência em apatia ou hostilidade. O exemplo das ações independentes dos outros é um meio de inspiração mais forte e saudável. Na medida em que as pessoas começam a atuar por si mesmas tornam-se mais dispostas a trocar experiências, colaborar em termos de igualdade e, caso necessário, solicitar assistência específica. E quando ganha sua própria liberdade é muito mais difícil voltar atrás. Um dos grafites de maio de 68 dizia: “Não estou a serviço do povo (muito menos de seus chamados líderes) — que o povo se vire sozinho”. Outro assinalava mais sucintamente: “Não me liberte — Eu cuido disso”.

Uma crítica total significa que tudo é questionável, não uma oposição a tudo. Os radicais esquecem isto com freqüência e caem em uma espiral de oposições mutuas mediante afirmações cada vez mais extremistas, supondo que qualquer compromisso eqüivale a vender-se, que todo prazer eqüivale a cumplicidade com o sistema. Realmente, estar “a favor” ou “contra” alguma posição política é bem fácil, e normalmente tão sem sentido, como estar a favor ou contra algum time de futebol. Aqueles que proclamam arrogantemente sua “total oposição” a todo compromisso, toda autoridade, toda organização, toda teoria, toda tecnologia, etc., normalmente não tem nenhuma perspectiva revolucionaria ­ nenhuma concepção prática sobre como o sistema presente pode ser derrubado ou como poderia funcionar uma sociedade pós-revolucionária. Alguns inclusive tentam justificar esta carência declarando que uma simples revolução nunca poderia ser o bastante radical para satisfazer sua eterna rebeldia ontológica.

Esta ênfase do tudo ou nada podem impressionar temporariamente a alguns espectadores, mas seu efeito último é simplesmente aborrecer às pessoas. Cedo ou tarde as contradições e hipocrisias conduzem ao desencanto e à resignação. Ao projetar sobre o mundo suas próprias frustrações, os extremistas acabam concluindo que toda mudança radical é sem esperança e reprime a experiência total; ou quiçá se alienam em alguma posição reacionária igualmente néscia.

Imagine se todo radical tivesse que ser um Durruti. É melhor nos esquecermos dele e nos dedicarmos a questões mais realizáveis. Mas ser radical não significa ser o mais extremo. Em seu sentido original significa simplesmente ir à raiz. A razão da necessidade de ser radical para lutar pela abolição do capitalismo e do estado não significa que este seja o objetivo mais extremo que se possa imaginar, significa que chegou a ser desgraçadamente evidente que menos que isso não bastará.

Temos que dar-nos conta daquilo que é necessário e suficiente; buscar projetos que sejamos verdadeiramente capazes de fazer, que sejam factíveis dentro de uma probabilidade realista. O que passar disso é ar quente. Muitas das táticas radicais mais velhas e inclusive mais efetivas — debates, críticas, boicotes, greves, ocupações, conselhos operários — logram popularidade precisamente porque são simples, relativamente seguras, amplamente aplicáveis, e bastante abertas para conduzir a possibilidades mais amplas.

O extremismo simplista busca naturalmente seu contraste mais extremo. Se todos os problemas podem ser atribuídos a uma mera camarilha sinistra de “fascistas totais” tudo o mais parecerá comparativa e confortavelmente progressista. A realidade é que as formas atuais de dominação moderna são normalmente bem sutis, proliferam soltas e sem oposição.

Fixar a atenção nos reacionários só os reforça, os faz parecer mais poderosos e fascinantes. “Não importa que nossos oponentes nos ridicularizem ou nos insultem, ou mesmo nos apresentem como palhaços ou criminosos; o essencial é que falem de nós, que se preocupem conosco” (Hitler). Reich destacou que “instruir as pessoas para que odeiem a polícia só fortalece a autoridade da polícia e a investe de um poder místico aos olhos dos pobres e desvalidos. Os fortes são odiados mas também temidos, invejados e seguidos. Sentimentos de medo e inveja por parte dos ‘despossuidos’ explica uma parte do poder dos reacionários políticos. Um dos principais objetivos da luta racional pela liberdade é desarmar aos reacionários expondo o caráter ilusório de seu poder” (People in Trouble).

O principal problema que implica em comprometimento é mais prático do que moral: é difícil atacar algo quando nos mesmos estamos implicados nele. Criticamos com evasivas por medo que outros nos critiquem por sua vez. Se torna mais difícil conceber grandes idéias ou atuar com audácia. Como se observou com freqüência, muitos alemães consentiram a opressão nazi porque ela foi implementada de maneira bem gradual e esteve a principio dirigida principalmente contra minorias impopulares (judeus, ciganos, comunistas, homossexuais); até que chegou ao ponto de afetar a população como um todo, incapacitada de fazer qualquer coisa.

É fácil condenar retrospectivamente aqueles que capitularam diante do fascismo ou do estalinismo, mas é provável que a maioria de nós não faria diferente se estivesse no lugar deles. Em nossas ilusões, nos pintamos como um personagem dramático enfrentando uma opção bem definida diante de uma audiência que a valoriza, imaginamos que não temos problema em levar a cabo a decisão correta. Mas as situações que encaramos na realidade são normalmente mais complexas e obscuras. Nem sempre é fácil saber onde fixar limites.

Pois que os fixemos em algum lugar, deixemos de lado a preocupação pela culpa, vergonha e autojustificação, e tomemos a ofensiva.

Vantagens da audácia

Este espírito é bem ilustrado por aqueles trabalhadores italianos que foram à greve sem fazer reivindicações de nenhum tipo. Tais greves não apenas são mais interessantes que as negociações usuais dos sindicatos burocráticos, como podem inclusive ser mais efetivas: os chefes, sem saber o que fazer, acabam muitas vezes concedendo muito mais do que o grevista se atreveria reivindicar. Estes podem então decidir sobre seu segundo passo sem ter se comprometido com nada.

Uma reação defensiva contra este ou aquele sintoma social consegue na melhor das hipóteses tão somente alguma concessão temporária sobre o tema específico. A agitação agressiva que rechaça o limite exerce maior pressão. Diante de movimentos imprevisíveis mui extensos, como a contracultura dos anos sessenta ou a revolta de maio de 68 — movimentos que põem tudo em dúvida, gerando contestações autônomas em muitas frentes, ameaçando estender-se por toda a sociedade. Demasiado vastos para ser controlados por líderes cooptaveis — os dominadores se precipitam em limpar sua imagem, aprovam reformas, aumentam os salários, libertam prisioneiros, declaram anistias, iniciam processos de paz — qualquer coisa com a esperança de adiantar-se ao movimento e restabelecer seu controle. (A absoluta incontrolabilidade da contracultura americana, que se estendeu intensamente até o próprio exército, jogou provavelmente um grande papel, tanto que o movimento anti-guerra explicitou forçar o fim da guerra do Vietnã).

O lado que toma a iniciativa define os termos da luta. Na medida em que segue inovando, retêm também o elemento surpresa. “A audácia é na prática um poder criativo. Quando a audácia se defronta com a vacilação já tem uma vantagem significativa porque o próprio estado de vacilação implica uma perda de equilíbrio. Apenas quando a audácia se defronta com uma previsão cauta fica em desvantagem”. (Clausewitz, Sobre a guerra). Mas a previsão cauta é mui rara entre aqueles que controlam esta sociedade. A maior parte dos processos de mercantilização, espetacularização e hierarquização são cegos e automáticos: mercadores, os meios de comunicação e os líderes seguem simplesmente suas tendências naturais de obter dinheiro, captar audiência ou recrutar seguidores.

A sociedade do espetáculo é com freqüência vítima de suas próprias falsificações. Posto que cada nível da burocracia trata por si mesmo de proteger-se com estatísticas infladas, cada “fonte de informação” sobrepuja às outras com historias mais sensacionais, cada estado supera outro em competência, os departamentos governamentais e as companhias privadas põem em prática suas próprias operações de desinformação independentes (ver capítulos 16 e 30 sobre os Comentários à sociedade do espetáculo), até mesmo os dominadores que excepcionalmente vislumbram alguma lucidez dificilmente poderão averiguar o que é que realmente está ocorrendo. Como observa Debord em outro lugar do mesmo livro: um estado que reprimiu seu próprio conhecimento histórico já não mais pode conduzir-se estrategicamente.

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A pessoa errada

junho 4, 2009

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Em se falando de amor, há de se considerar essa hipótese: estamos em busca da pessoa errada, ou pelo menos, é ela que nos falta. Mas não falo de qualquer pessoa errada, não é próprio para o homem, ou para a mulher, uma infinidade de opções. A pessoa errada, aquela que lhe cabe sem risco de acerto, não está disponível em cada esquina. Ela se encontra exatamente na hora e lugar errados.

De um tropeço, de um ataque histérico ou crise alérgica deve surgir, pois ao amor que não machuca, não enlouquece ou sangra, falta o sal e o açúcar. Falta a verve incendiária e o instinto de morte, falta a falta de rumo e sobra o zelo e o tédio e as coisas banais.

Não é para qualquer um encontrar a pessoa errada, aquela que tem os defeitos exatos, as manias e as zangas perfeitamente incompatíveis. A pessoa errada que nos cabe deve nos tirar do sério, derrubar do prumo e nos explodir nas alturas do atordoamento. Deve ser incompreensível, um mistério assustador, um desencanto. Deve ser o espelho da manhã que nos denuncia as olheiras, as rugas e os maus pensamentos, e que nos ofusca, espeta qual alfinete, os olhos recém despertos.

A pessoa errada escapa entre os dedos logo cedo e volta para nos invadir os sonhos sem nenhuma educação ou cortesia. De uma imperfeição precisa, ela não tem graça, tem preço, e custa caro.

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Mestres

junho 3, 2009

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[Galeano e Saramago]

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Nesse ótimo texto Saramago elogiou (em abril) o gesto do presidente Hugo Chávez de presentear o presidente norte-americano Barack Obama com o livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Fiquei muito feliz de saber que, por essa ação do venezuelano, as vendas do livro aumentaram vertiginosamente. Eu desejo do fundo do coração que todas essas pessoas o leiam, vale a pena para o mundo, Galeano é um mestre e esse livro é uma obra-prima que tem muito a nos ensinar, latino-americanos ou não.

E já não há desculpas: o livro está disponível na rede, graças aos esforços do coletivo Sabotagem.

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Praça da Fé

junho 2, 2009

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[Natal na praça, 2005]

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Praça da catedral, museu a céu aberto de monumentais obras de arte e de pessoas esquecidas, abandonadas no tempo das coisas velozes e da técnica que lhes toma a humanidade. Uma escultura roda sobre o eixo, fria e metálica com suas pontas cortantes, e já nem importa o nome do artista que a criou (mas que com certeza não a moldou), apenas a empresa que financia arte por publicidade.

Enquanto me distraio com o sinistro espetáculo giratório, uma jovem negra e forte se aproxima decididamente e me exige o cigarro. Nem mesmo agradece, deveria? Observo surpresa sua partida em passos gingados.

A catedral de oitocentos quilos de mármore, assustadora e imponente marca no espaço os tempos de exploração, que permanecem estendendo seus braços sobre a miséria que dança ao som da flauta boliviana. Entre nós os espelhos d’água que agora não banham os corpos gelados de quem tem como teto apenas o céu inacessível, promessa distante de paraíso.

Um rapaz se aproxima apenas de camiseta, tremendo de frio e de droga, para elogiar a moça com suas duas crianças: “Essa é mulher de verdade, de respeito. Mulher safada tem que apanhar mesmo. Tem mulher que nem sabe fritar um ovo, não dá pra levar pra casa. Amor de mulher mesmo, mulher de verdade, só tive da minha mãe”.

As lâmpadas da praça se acendem refletindo luzes amarelas no espelho líquido. Há lua no céu ainda claro e o frio se torna cada vez mais assustador. A moça cobre as cabeças dos filhos com toucas de lã, mas seus pés estão de chinelos. Vão embora enquanto executivos e outros trabalhadores diários cruzam rapidamente a praça. Retiram-se e vão deixando ali invisíveis os homens e mulheres sem casa, que fogem do frio e da fome em direção ao álcool mais barato e sórdido, política pública de extermínio.

Em que estado estão esses corpos? Ruínas humanas entre esculturas, museu da perversidade. Uma sala vazia repleta de personagens Beckettianos: Pim chafurdando na lama apocalíptica com seu saco de latas.

Senta o velho ao meu lado, observando a lei que pisca suas luzes paralisantes sobre o automóvel fardado. Assiste o movimento com desconfiança, as mãos entrelaçadas e vazias, o olhar triste. Espera alguém? A morte, talvez? Dois jovens passam correndo e ele se levanta e vai embora. As pessoas continuam a correr alheias, por que lhes diria respeito o mundo?

Os bolivianos recolhem seus instrumentos, hora de deixar a praça para aqueles seres destituídos. Toca o sino da catedral, dezoito horas, atravesso a praça e o rapaz me chama para conversar, sentamos. Ele diz que com ele estou protegida, mas que não deveria ficar ali. Chama-se Wellington, como tantos outros, tem vinte e seis anos de vida e sete de cadeia, por “assalto plantado”. Está nas ruas faz seis meses, perdeu os pais ainda pequeno. Seu maior desejo é encontrar “mulher de verdade” e diz que com a ajuda de Deus vai conseguir.

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Um teto todo seu

maio 30, 2009

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Fragmento final de Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

Sobre “as mulheres e a ficção”, “este ensaio baseia-se em dois artigos lidos perante a Sociedade das Artes, em Newnham, e a Odtaa, em Girton, em outubro de 1928.”

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(…) Neste ponto eu me deteria, mas as pressões da
convenção determinam que todo discurso deve terminar
com uma peroração. E uma peroração dirigida
às mulheres deve ter algo, vocês hão de convir, de
particularmente exaltador e nobilitante. Eu lhes imploraria
que se lembrem de suas responsabilidades,
que sejam mais elevadas, mais espirituais; eu lhes
lembraria quanta coisa depende de vocês e que enorme
influência podem exercer no futuro. Mas essas
exortações, penso eu, podem ser tranqüilamente
deixadas a cargo de outro sexo, que as colocará, e a
rigor as tem colocado, com muito maior eloqüência
do que posso alcançar. Quando vasculho minha pró-
pria mente, não encontro sentimentos nobres sobre
sermos companheiras e iguais e influenciarmos o
mundo para fins mais elevados. Descubro-me dizendo,
breve e prosaicamente, que é muito mais importante
ser aquilo que se é do que qualquer outra coisa.
Não sonhem influenciar outras pessoas, eu diria, se
soubesse fazê-lo de forma mais brilhante. Pensem
nas coisas como são.
E mais uma vez vem-me à lembrança, mergulhando
em jornais e romances e biografias, que,
quando uma mulher fala com mulheres, deve ter algo
muito desagradável escondido na manga. As mulheres
são duras com as mulheres. As mulheres não gostam
das mulheres. As mulheres — mas será que vocês
não estão completamente fartas da palavra? Garanto-
lhes que eu estou. Concordemos, então, que um
artigo lido por uma mulher para mulheres deve terminar
com algo particularmente desagradável.
Mas como é isso? Em que posso pensar? A
verdade é que freqüentemente gosto das mulheres.
Gosto de sua informalidade. Gosto de sua integridade.
Gosto de seu anonimato. Gosto. . . Mas não devo
prosseguir dessa maneira. Aquele armário lá. . . Vocês
dizem que ele contém apenas guardanapos limpos,
mas e se Sir Archibald Bodkin estiver escondido
entre eles? Permitam-me então adotar um tom mais
severo. Eu lhes terei, nas palavras precedentes, transmitido
suficientemente as advertências e a exprobação
da humanidade? Falei-lhes sobre o conceito
muito baixo em que as tinha o sr. Oscar Browning.
Mostrei o que Napoleão pensou de vocês em certa
época e o que Mussolini pensa agora. Depois, para
o caso de alguma dentre vocês aspirar à ficção, transcrevi
para seu bem a recomendação do crítico sobre
reconhecerem corajosamente as limitações de seu
sexo. Referi-me ao professor X e dei destaque a sua
afirmação de que as mulheres são intelectual, física e
moralmente inferiores aos homens. Transmiti-lhes
tudo o que veio a mim de modo espontâneo, e aqui
está uma advertência final, do sr. John Langdon Davies.
Ele adverte as mulheres de que “quando as
crianças deixam de ser inteiramente desejáveis, as
mulheres deixam de ser inteiramente necessárias”.
Espero que vocês tomem nota disso.
Como posso incentivá-las mais a empreenderem
a tarefa de viver? Minhas jovens, diria eu, e tenham
a bondade de prestar atenção, pois a peroração está
começando, vocês são, a meu ver, vergonhosamente
ignorantes. Nunca fizeram uma descoberta de alguma
importância. Nunca sacudiram um império ou
levaram um exército à batalha. As peças de Shakespeare
não são de sua autoria, e vocês nunca apresentaram
uma raça de bárbaros às bênçãos da civilização.
Qual é sua desculpa? É muito fácil vocês dizerem,
apontando para as ruas e praças e florestas do globo
fervilhando de habitantes negros e brancos e cor de
café, todos extremamente ocupados com o tráfego e
as empresas e o relacionamento sexual, que estivemos
ocupadas com outro trabalho. Sem nosso trabalho,
esses mares não seriam navegados e aquelas
terras férteis se constituiriam num deserto. Geramos
e alimentamos e lavamos e instruímos, talvez até os
seis ou sete anos de idade, o bilhão e seiscentos e
vinte e três milhões de seres humanos que, segundo
as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo
admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda,
leva tempo.
Há uma certa verdade no que vocês dizem, não
o nego. Mas, ao mesmo tempo, permitam-me lembrar-
lhes que existem pelo menos duas faculdades
para mulheres na Inglaterra desde 1866; que, a partir
de 1880, a mulher casada foi autorizada, por lei,
a possuir sua própria propriedade; e que em 1919
— e já se vão aí nove anos inteiros! — ela obteve o
direito do voto. Será que posso também lembrar-lhes
que a maioria das profissões está aberta a vocês há
quase dez anos? Quando refletirem sobre esses imensos
privilégios, a extensão de tempo em que eles vêm
sendo desfrutados e o fato de que deve haver, neste
momento, umas duas mil mulheres capazes de ganhar
mais de quinhentas libras por ano de um modo ou
de outro, vocês hão de concordar em que a desculpa
da falta de oportunidade, formação, incentivo, lazer
e dinheiro já não se aplica. Além disso, os economistas
têm-nos dito que a sra. Seton teve filhos demais.
Você devem, é claro, continuar a ter filhos, mas,
como dizem eles, aos dois e aos três, e não às dezenas
e às dúzias.
Assim, com algum tempo nas mãos e algum conhecimento
livresco na cabeça — vocês já tiveram o
bastante do outro tipo e, em parte, suspeito de que
estejam sendo enviadas à universidade para desaprender
—, sem dúvida ingressarão num outro estágio
de sua carreira muito longa, muito laboriosa e altamente
obscura. Milhares de penas estão prontas para
sugerir-lhes o que devem fazer e que efeito terão.
Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito;
prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção.
Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que
Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por
ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela
morreu jovem — ai de nós! Não escreveu uma só
palavra. Está enterrada onde os ônibus param agora,
em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha
crença é de que essa poetisa que nunca escreveu uma
palavra e foi enterrada numa encruzilhada ainda vive.
Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres
que não estão aqui esta noite, porque estão
lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas
ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são
presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade
de andar entre nós em carne e osso. Essa oportunidade,
segundo penso, começa agora a ficar ao alcance
de vocês conferir-lhe. Pois minha crença é de que,
se vivermos aproximadamente mais um século — e
estou falando na vida comum que é a vida real, e não
nas vidinhas à parte que vivemos individualmente
— e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano
e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade
e a coragem de escrever exatamente o que pensamos;
se fugirmos um pouco da sala de estar e virmos os
seres humanos nem sempre em sua relação uns com
os outros, mas em relação à realidade, e também o
céu e as árvores, ou o que quer que seja, como são;
se olharmos mais além do espectro de Milton, pois
nenhum ser humano deve tapar o horizonte; se encararmos
o fato, porque é um fato, de que não há
nenhum braço onde nos apoiarmos, mas que seguimos
sozinhas e que nossa relação é para com o mundo
da realidade e não apenas para com o mundo dos homens
e das mulheres, então a oportunidade surgirá,
e a poetisa morta que foi a irmã de Shakespeare assumirá
o corpo que com tanta freqüência deitou por
terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas
que foram suas precursoras, como antes fez seu
irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação,
sem esse esforço de nossa parte, sem essa
certeza de que, quando nascer novamente, achará
possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos
esperar, pois seria impossível. Mas afirmo que
ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar
assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a
pena.

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A liberdade de ver os outros

maio 25, 2009

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Um dos escritores mais admirados de sua geração, o americano David Foster Wallace se suicidou no mês passado, aos 46 anos, enforcando-se. Este texto foi tirado de seu discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, há três anos*

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A liberdade de ver os outros

David Foster Wallace

*

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

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(*) Publicado na Revista Piauí

Mulheres

maio 25, 2009

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Rosa_Luxemburg

[Rosa Luxemburg]

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VirginiaWoolf

[Virginia Woolf]

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[Simone de Beauvoir]

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Cada uma a sua maneira, três mulheres inspiradoras, porque antes de tudo, não silenciaram.

Para conhecê-las um pouco:

Obras de Rosa Luxemburgo

Um teto todo seu – artigo de Virgínia Woolf sobre “As mulheres e a ficção”, de 1928

O segundo sexo – ensaio de Simone de Beauvoir, de 1949, publicado em dois volumes: Fatos e mitos e A experiência vivida

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