“Não me liberte – Eu cuido disso”

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Trecho de A Alegria da Revolução, de Ken Knabb (capítulo 2: Excitação preliminar)

Tradução de Railton Sousa Guedes do original The Joy of Revolution

Dica de Moésio Rebouças / Agência de Notícias Anarquistas – ANA

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Inconvenientes do moralismo e do extremismo simplista

Muitos destes absurdos derivam da falsa assunção de que ser radical implica viver conforme algum “princípio” moral — como se ninguém pudesse agir pacificamente sem ser um pacifista total, ou defender a abolição do capitalismo sem desfazer-se de todo seu dinheiro. A maioria das pessoas tem demasiado sentido comum para seguir realmente estes ideais simplistas, mas se sentem com freqüência vagamente culpados por não fazê-lo. Esta culpabilidade lhes paralisa e lhes faz mais susceptíveis à chantagem dos manipuladores esquerdistas (que nos dizem que se não temos a coragem de nos sacrificar, devemos apoiar acríticamente aqueles que o fazem). Ou tratam de reprimir sua culpa denegrindo a outros que parecem mais comprometidos: um trabalhador manual pode orgulhar-se de não vender-se mentalmente como um professor; que quiçá se sente superior a um publicitário; que pode por sua vez menosprezar a alguém que trabalha na industria de armamento

Converter problemas sociais em questões morais pessoais distrai a atenção de sua solução potencial. Tentar mudar as condições sociais mediante a caridade é como tentar elevar o nível do mar derramando caixas de água no oceano. Se alguém logra algum bem mediante ações altruístas, confiar nelas como estratégia geral é fútil porque sempre serão a exceção. É natural que a maior parte das pessoas considera antes seus próprios interesses aos interesses de seu próximo. Um dos méritos dos situacionistas foi haver superado as invocações esquerdistas da culpa e do auto-sacrificio destacando que a primeira causa para fazer uma revolução somos nos mesmos.

“Ir ao povo” para “servi-lo”, “organiza-lo”, “radicaliza-lo” conduz normalmente à manipulação e resulta com freqüência em apatia ou hostilidade. O exemplo das ações independentes dos outros é um meio de inspiração mais forte e saudável. Na medida em que as pessoas começam a atuar por si mesmas tornam-se mais dispostas a trocar experiências, colaborar em termos de igualdade e, caso necessário, solicitar assistência específica. E quando ganha sua própria liberdade é muito mais difícil voltar atrás. Um dos grafites de maio de 68 dizia: “Não estou a serviço do povo (muito menos de seus chamados líderes) — que o povo se vire sozinho”. Outro assinalava mais sucintamente: “Não me liberte — Eu cuido disso”.

Uma crítica total significa que tudo é questionável, não uma oposição a tudo. Os radicais esquecem isto com freqüência e caem em uma espiral de oposições mutuas mediante afirmações cada vez mais extremistas, supondo que qualquer compromisso eqüivale a vender-se, que todo prazer eqüivale a cumplicidade com o sistema. Realmente, estar “a favor” ou “contra” alguma posição política é bem fácil, e normalmente tão sem sentido, como estar a favor ou contra algum time de futebol. Aqueles que proclamam arrogantemente sua “total oposição” a todo compromisso, toda autoridade, toda organização, toda teoria, toda tecnologia, etc., normalmente não tem nenhuma perspectiva revolucionaria ­ nenhuma concepção prática sobre como o sistema presente pode ser derrubado ou como poderia funcionar uma sociedade pós-revolucionária. Alguns inclusive tentam justificar esta carência declarando que uma simples revolução nunca poderia ser o bastante radical para satisfazer sua eterna rebeldia ontológica.

Esta ênfase do tudo ou nada podem impressionar temporariamente a alguns espectadores, mas seu efeito último é simplesmente aborrecer às pessoas. Cedo ou tarde as contradições e hipocrisias conduzem ao desencanto e à resignação. Ao projetar sobre o mundo suas próprias frustrações, os extremistas acabam concluindo que toda mudança radical é sem esperança e reprime a experiência total; ou quiçá se alienam em alguma posição reacionária igualmente néscia.

Imagine se todo radical tivesse que ser um Durruti. É melhor nos esquecermos dele e nos dedicarmos a questões mais realizáveis. Mas ser radical não significa ser o mais extremo. Em seu sentido original significa simplesmente ir à raiz. A razão da necessidade de ser radical para lutar pela abolição do capitalismo e do estado não significa que este seja o objetivo mais extremo que se possa imaginar, significa que chegou a ser desgraçadamente evidente que menos que isso não bastará.

Temos que dar-nos conta daquilo que é necessário e suficiente; buscar projetos que sejamos verdadeiramente capazes de fazer, que sejam factíveis dentro de uma probabilidade realista. O que passar disso é ar quente. Muitas das táticas radicais mais velhas e inclusive mais efetivas — debates, críticas, boicotes, greves, ocupações, conselhos operários — logram popularidade precisamente porque são simples, relativamente seguras, amplamente aplicáveis, e bastante abertas para conduzir a possibilidades mais amplas.

O extremismo simplista busca naturalmente seu contraste mais extremo. Se todos os problemas podem ser atribuídos a uma mera camarilha sinistra de “fascistas totais” tudo o mais parecerá comparativa e confortavelmente progressista. A realidade é que as formas atuais de dominação moderna são normalmente bem sutis, proliferam soltas e sem oposição.

Fixar a atenção nos reacionários só os reforça, os faz parecer mais poderosos e fascinantes. “Não importa que nossos oponentes nos ridicularizem ou nos insultem, ou mesmo nos apresentem como palhaços ou criminosos; o essencial é que falem de nós, que se preocupem conosco” (Hitler). Reich destacou que “instruir as pessoas para que odeiem a polícia só fortalece a autoridade da polícia e a investe de um poder místico aos olhos dos pobres e desvalidos. Os fortes são odiados mas também temidos, invejados e seguidos. Sentimentos de medo e inveja por parte dos ‘despossuidos’ explica uma parte do poder dos reacionários políticos. Um dos principais objetivos da luta racional pela liberdade é desarmar aos reacionários expondo o caráter ilusório de seu poder” (People in Trouble).

O principal problema que implica em comprometimento é mais prático do que moral: é difícil atacar algo quando nos mesmos estamos implicados nele. Criticamos com evasivas por medo que outros nos critiquem por sua vez. Se torna mais difícil conceber grandes idéias ou atuar com audácia. Como se observou com freqüência, muitos alemães consentiram a opressão nazi porque ela foi implementada de maneira bem gradual e esteve a principio dirigida principalmente contra minorias impopulares (judeus, ciganos, comunistas, homossexuais); até que chegou ao ponto de afetar a população como um todo, incapacitada de fazer qualquer coisa.

É fácil condenar retrospectivamente aqueles que capitularam diante do fascismo ou do estalinismo, mas é provável que a maioria de nós não faria diferente se estivesse no lugar deles. Em nossas ilusões, nos pintamos como um personagem dramático enfrentando uma opção bem definida diante de uma audiência que a valoriza, imaginamos que não temos problema em levar a cabo a decisão correta. Mas as situações que encaramos na realidade são normalmente mais complexas e obscuras. Nem sempre é fácil saber onde fixar limites.

Pois que os fixemos em algum lugar, deixemos de lado a preocupação pela culpa, vergonha e autojustificação, e tomemos a ofensiva.

Vantagens da audácia

Este espírito é bem ilustrado por aqueles trabalhadores italianos que foram à greve sem fazer reivindicações de nenhum tipo. Tais greves não apenas são mais interessantes que as negociações usuais dos sindicatos burocráticos, como podem inclusive ser mais efetivas: os chefes, sem saber o que fazer, acabam muitas vezes concedendo muito mais do que o grevista se atreveria reivindicar. Estes podem então decidir sobre seu segundo passo sem ter se comprometido com nada.

Uma reação defensiva contra este ou aquele sintoma social consegue na melhor das hipóteses tão somente alguma concessão temporária sobre o tema específico. A agitação agressiva que rechaça o limite exerce maior pressão. Diante de movimentos imprevisíveis mui extensos, como a contracultura dos anos sessenta ou a revolta de maio de 68 — movimentos que põem tudo em dúvida, gerando contestações autônomas em muitas frentes, ameaçando estender-se por toda a sociedade. Demasiado vastos para ser controlados por líderes cooptaveis — os dominadores se precipitam em limpar sua imagem, aprovam reformas, aumentam os salários, libertam prisioneiros, declaram anistias, iniciam processos de paz — qualquer coisa com a esperança de adiantar-se ao movimento e restabelecer seu controle. (A absoluta incontrolabilidade da contracultura americana, que se estendeu intensamente até o próprio exército, jogou provavelmente um grande papel, tanto que o movimento anti-guerra explicitou forçar o fim da guerra do Vietnã).

O lado que toma a iniciativa define os termos da luta. Na medida em que segue inovando, retêm também o elemento surpresa. “A audácia é na prática um poder criativo. Quando a audácia se defronta com a vacilação já tem uma vantagem significativa porque o próprio estado de vacilação implica uma perda de equilíbrio. Apenas quando a audácia se defronta com uma previsão cauta fica em desvantagem”. (Clausewitz, Sobre a guerra). Mas a previsão cauta é mui rara entre aqueles que controlam esta sociedade. A maior parte dos processos de mercantilização, espetacularização e hierarquização são cegos e automáticos: mercadores, os meios de comunicação e os líderes seguem simplesmente suas tendências naturais de obter dinheiro, captar audiência ou recrutar seguidores.

A sociedade do espetáculo é com freqüência vítima de suas próprias falsificações. Posto que cada nível da burocracia trata por si mesmo de proteger-se com estatísticas infladas, cada “fonte de informação” sobrepuja às outras com historias mais sensacionais, cada estado supera outro em competência, os departamentos governamentais e as companhias privadas põem em prática suas próprias operações de desinformação independentes (ver capítulos 16 e 30 sobre os Comentários à sociedade do espetáculo), até mesmo os dominadores que excepcionalmente vislumbram alguma lucidez dificilmente poderão averiguar o que é que realmente está ocorrendo. Como observa Debord em outro lugar do mesmo livro: um estado que reprimiu seu próprio conhecimento histórico já não mais pode conduzir-se estrategicamente.

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