Praça da Fé

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[Natal na praça, 2005]

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Praça da catedral, museu a céu aberto de monumentais obras de arte e de pessoas esquecidas, abandonadas no tempo das coisas velozes e da técnica que lhes toma a humanidade. Uma escultura roda sobre o eixo, fria e metálica com suas pontas cortantes, e já nem importa o nome do artista que a criou (mas que com certeza não a moldou), apenas a empresa que financia arte por publicidade.

Enquanto me distraio com o sinistro espetáculo giratório, uma jovem negra e forte se aproxima decididamente e me exige o cigarro. Nem mesmo agradece, deveria? Observo surpresa sua partida em passos gingados.

A catedral de oitocentos quilos de mármore, assustadora e imponente marca no espaço os tempos de exploração, que permanecem estendendo seus braços sobre a miséria que dança ao som da flauta boliviana. Entre nós os espelhos d’água que agora não banham os corpos gelados de quem tem como teto apenas o céu inacessível, promessa distante de paraíso.

Um rapaz se aproxima apenas de camiseta, tremendo de frio e de droga, para elogiar a moça com suas duas crianças: “Essa é mulher de verdade, de respeito. Mulher safada tem que apanhar mesmo. Tem mulher que nem sabe fritar um ovo, não dá pra levar pra casa. Amor de mulher mesmo, mulher de verdade, só tive da minha mãe”.

As lâmpadas da praça se acendem refletindo luzes amarelas no espelho líquido. Há lua no céu ainda claro e o frio se torna cada vez mais assustador. A moça cobre as cabeças dos filhos com toucas de lã, mas seus pés estão de chinelos. Vão embora enquanto executivos e outros trabalhadores diários cruzam rapidamente a praça. Retiram-se e vão deixando ali invisíveis os homens e mulheres sem casa, que fogem do frio e da fome em direção ao álcool mais barato e sórdido, política pública de extermínio.

Em que estado estão esses corpos? Ruínas humanas entre esculturas, museu da perversidade. Uma sala vazia repleta de personagens Beckettianos: Pim chafurdando na lama apocalíptica com seu saco de latas.

Senta o velho ao meu lado, observando a lei que pisca suas luzes paralisantes sobre o automóvel fardado. Assiste o movimento com desconfiança, as mãos entrelaçadas e vazias, o olhar triste. Espera alguém? A morte, talvez? Dois jovens passam correndo e ele se levanta e vai embora. As pessoas continuam a correr alheias, por que lhes diria respeito o mundo?

Os bolivianos recolhem seus instrumentos, hora de deixar a praça para aqueles seres destituídos. Toca o sino da catedral, dezoito horas, atravesso a praça e o rapaz me chama para conversar, sentamos. Ele diz que com ele estou protegida, mas que não deveria ficar ali. Chama-se Wellington, como tantos outros, tem vinte e seis anos de vida e sete de cadeia, por “assalto plantado”. Está nas ruas faz seis meses, perdeu os pais ainda pequeno. Seu maior desejo é encontrar “mulher de verdade” e diz que com a ajuda de Deus vai conseguir.

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Uma resposta to “Praça da Fé”

  1. Karina Says:

    Sempre que passo por lá ou por algum lugar semelhante de São Paulo sinto uma náusea, não acho justo que eu tenha tudo e algumas pessoas não tenham nada. Fico mal, de verdade. Não entendo como algumas pessoas não sentem mais nada quando veêm aquilo tudo.

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