Um teto todo seu

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Fragmento final de Um teto todo seu, de Virginia Woolf.

Sobre “as mulheres e a ficção”, “este ensaio baseia-se em dois artigos lidos perante a Sociedade das Artes, em Newnham, e a Odtaa, em Girton, em outubro de 1928.”

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(…) Neste ponto eu me deteria, mas as pressões da
convenção determinam que todo discurso deve terminar
com uma peroração. E uma peroração dirigida
às mulheres deve ter algo, vocês hão de convir, de
particularmente exaltador e nobilitante. Eu lhes imploraria
que se lembrem de suas responsabilidades,
que sejam mais elevadas, mais espirituais; eu lhes
lembraria quanta coisa depende de vocês e que enorme
influência podem exercer no futuro. Mas essas
exortações, penso eu, podem ser tranqüilamente
deixadas a cargo de outro sexo, que as colocará, e a
rigor as tem colocado, com muito maior eloqüência
do que posso alcançar. Quando vasculho minha pró-
pria mente, não encontro sentimentos nobres sobre
sermos companheiras e iguais e influenciarmos o
mundo para fins mais elevados. Descubro-me dizendo,
breve e prosaicamente, que é muito mais importante
ser aquilo que se é do que qualquer outra coisa.
Não sonhem influenciar outras pessoas, eu diria, se
soubesse fazê-lo de forma mais brilhante. Pensem
nas coisas como são.
E mais uma vez vem-me à lembrança, mergulhando
em jornais e romances e biografias, que,
quando uma mulher fala com mulheres, deve ter algo
muito desagradável escondido na manga. As mulheres
são duras com as mulheres. As mulheres não gostam
das mulheres. As mulheres — mas será que vocês
não estão completamente fartas da palavra? Garanto-
lhes que eu estou. Concordemos, então, que um
artigo lido por uma mulher para mulheres deve terminar
com algo particularmente desagradável.
Mas como é isso? Em que posso pensar? A
verdade é que freqüentemente gosto das mulheres.
Gosto de sua informalidade. Gosto de sua integridade.
Gosto de seu anonimato. Gosto. . . Mas não devo
prosseguir dessa maneira. Aquele armário lá. . . Vocês
dizem que ele contém apenas guardanapos limpos,
mas e se Sir Archibald Bodkin estiver escondido
entre eles? Permitam-me então adotar um tom mais
severo. Eu lhes terei, nas palavras precedentes, transmitido
suficientemente as advertências e a exprobação
da humanidade? Falei-lhes sobre o conceito
muito baixo em que as tinha o sr. Oscar Browning.
Mostrei o que Napoleão pensou de vocês em certa
época e o que Mussolini pensa agora. Depois, para
o caso de alguma dentre vocês aspirar à ficção, transcrevi
para seu bem a recomendação do crítico sobre
reconhecerem corajosamente as limitações de seu
sexo. Referi-me ao professor X e dei destaque a sua
afirmação de que as mulheres são intelectual, física e
moralmente inferiores aos homens. Transmiti-lhes
tudo o que veio a mim de modo espontâneo, e aqui
está uma advertência final, do sr. John Langdon Davies.
Ele adverte as mulheres de que “quando as
crianças deixam de ser inteiramente desejáveis, as
mulheres deixam de ser inteiramente necessárias”.
Espero que vocês tomem nota disso.
Como posso incentivá-las mais a empreenderem
a tarefa de viver? Minhas jovens, diria eu, e tenham
a bondade de prestar atenção, pois a peroração está
começando, vocês são, a meu ver, vergonhosamente
ignorantes. Nunca fizeram uma descoberta de alguma
importância. Nunca sacudiram um império ou
levaram um exército à batalha. As peças de Shakespeare
não são de sua autoria, e vocês nunca apresentaram
uma raça de bárbaros às bênçãos da civilização.
Qual é sua desculpa? É muito fácil vocês dizerem,
apontando para as ruas e praças e florestas do globo
fervilhando de habitantes negros e brancos e cor de
café, todos extremamente ocupados com o tráfego e
as empresas e o relacionamento sexual, que estivemos
ocupadas com outro trabalho. Sem nosso trabalho,
esses mares não seriam navegados e aquelas
terras férteis se constituiriam num deserto. Geramos
e alimentamos e lavamos e instruímos, talvez até os
seis ou sete anos de idade, o bilhão e seiscentos e
vinte e três milhões de seres humanos que, segundo
as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo
admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda,
leva tempo.
Há uma certa verdade no que vocês dizem, não
o nego. Mas, ao mesmo tempo, permitam-me lembrar-
lhes que existem pelo menos duas faculdades
para mulheres na Inglaterra desde 1866; que, a partir
de 1880, a mulher casada foi autorizada, por lei,
a possuir sua própria propriedade; e que em 1919
— e já se vão aí nove anos inteiros! — ela obteve o
direito do voto. Será que posso também lembrar-lhes
que a maioria das profissões está aberta a vocês há
quase dez anos? Quando refletirem sobre esses imensos
privilégios, a extensão de tempo em que eles vêm
sendo desfrutados e o fato de que deve haver, neste
momento, umas duas mil mulheres capazes de ganhar
mais de quinhentas libras por ano de um modo ou
de outro, vocês hão de concordar em que a desculpa
da falta de oportunidade, formação, incentivo, lazer
e dinheiro já não se aplica. Além disso, os economistas
têm-nos dito que a sra. Seton teve filhos demais.
Você devem, é claro, continuar a ter filhos, mas,
como dizem eles, aos dois e aos três, e não às dezenas
e às dúzias.
Assim, com algum tempo nas mãos e algum conhecimento
livresco na cabeça — vocês já tiveram o
bastante do outro tipo e, em parte, suspeito de que
estejam sendo enviadas à universidade para desaprender
—, sem dúvida ingressarão num outro estágio
de sua carreira muito longa, muito laboriosa e altamente
obscura. Milhares de penas estão prontas para
sugerir-lhes o que devem fazer e que efeito terão.
Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito;
prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção.
Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que
Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por
ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela
morreu jovem — ai de nós! Não escreveu uma só
palavra. Está enterrada onde os ônibus param agora,
em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha
crença é de que essa poetisa que nunca escreveu uma
palavra e foi enterrada numa encruzilhada ainda vive.
Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres
que não estão aqui esta noite, porque estão
lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas
ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são
presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade
de andar entre nós em carne e osso. Essa oportunidade,
segundo penso, começa agora a ficar ao alcance
de vocês conferir-lhe. Pois minha crença é de que,
se vivermos aproximadamente mais um século — e
estou falando na vida comum que é a vida real, e não
nas vidinhas à parte que vivemos individualmente
— e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano
e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade
e a coragem de escrever exatamente o que pensamos;
se fugirmos um pouco da sala de estar e virmos os
seres humanos nem sempre em sua relação uns com
os outros, mas em relação à realidade, e também o
céu e as árvores, ou o que quer que seja, como são;
se olharmos mais além do espectro de Milton, pois
nenhum ser humano deve tapar o horizonte; se encararmos
o fato, porque é um fato, de que não há
nenhum braço onde nos apoiarmos, mas que seguimos
sozinhas e que nossa relação é para com o mundo
da realidade e não apenas para com o mundo dos homens
e das mulheres, então a oportunidade surgirá,
e a poetisa morta que foi a irmã de Shakespeare assumirá
o corpo que com tanta freqüência deitou por
terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas
que foram suas precursoras, como antes fez seu
irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação,
sem esse esforço de nossa parte, sem essa
certeza de que, quando nascer novamente, achará
possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos
esperar, pois seria impossível. Mas afirmo que
ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar
assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a
pena.

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