A primeira Pedalada Pelada de uma Diaba

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[imagem: Willian Cruz]

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“Nesse sábado participei da minha primeira Pedalada Pelada, aqui em São Paulo. Estava trabalhando no caos do congestionamento, tentando negociar algumas almas desesperadas na Avenida Paulista, quando passou por mim uma multidão de ciclistas seminus.

Achei que seria uma boa oportunidade para fazer negócios, afinal, gente que fica (ou pretende ficar) pelada na rua deve estar com vontade de se queimar nas profundezas do inferno. Bom, pelo menos a Igreja Católica, um de nossos parceiros institucionais aqui na terra, chama isso de obscenidade. Eu acho uma bobagem indigna de comentários, mas já que pelados em praça pública estão na lista, por que não aproveitar?

Rapidamente consegui uma bicicleta para acompanhar os assanhadinhos. Estava de olho em um rapaz coberto com uma máscara de porco, que me pareceu um alvo fácil de convencer sobre os benefícios de se ir morar no inferno após a morte. Ele achou que eu estava me manifestando também, acho que não entendeu direito quem eu era e não me levou muito a sério. Na verdade ele riu da minha cara, ou para mim, não sei, quando comecei a gritar aos motoristas parados no outro lado da avenida que o bom mesmo era andar de carro.

Essa é uma estratégia que nós, demônios, usamos frequentemente nessas grandes cidades entupidas de automóveis: nós incentivamos o uso indiscriminado dessas máquinas poluentes e assassinas. As pessoas passam muitas horas congestionadas, aprisionadas, sufocadas e entediadas. Não há melhor momento para negociar almas, o trabalho fica fácil. Além disso, o calor insuportável, os gases tóxicos, as buzinas insistentes e irritantes, tudo isso faz parecer que o inferno não é tão mal assim.

Isso sem falar nos enormes malefícios causados ao planeta, mas aí eu teria que me alongar uma eternidade nessa conversa. Basta dizer que a indústria automobilística, outra parceira institucional do inferno aqui na terra, nos economiza um gigantesco trabalho. É a tecnologia colaborando com os propósitos infernais, coisa muito eficiente e altamente diabólica.

Voltando aos ciclistas pelados, já no final da avenida um fotógrafo avançou sobre mim com sua câmera e não parava de tirar fotos da minha cara. Ele não me deixava passar, plantado na frente da minha bicicleta. Na hora fiquei muito nervosa, porque se o Capeta Chefe descobrisse que eu estava me divertindo (sim, eu estava me divertindo a essa altura dos acontecimentos) eu estaria condenada a viver uma vida chata e entediante, provavelmente no céu católico que inventaram para nos castigar.

Mas aquele fotógrafo idiota se recusou a sair da minha frente, então avancei com minha bicicleta sobre ele, e nada do sujeito se retirar. Não tive dúvidas: desci da minha bike e soquei a bichinha nele, com toda a força! Foi então que os ciclistas mais próximos perceberam o problema e me defenderam, expulsando o sujeito da avenida. E assim tive a confirmação que eles realmente não eram tão mal assim, e pensei que talvez estivesse perdendo um tempo precioso de trabalho.

Mas eu estava (sim, confesso) me divertindo e resolvi continuar pedalando. Aliás, como é gostoso trabalhar de bicicleta! Só não posso fazer isso sempre para não dar bom exemplo, as pessoas devem continuar andando de carro, afinal essa é uma das estratégias para atingirmos nosso objetivo final.

Viramos à direita e passamos em frente a um hospital. Os ciclistas, que até aquele momento não paravam de gritar, ficaram em silêncio. Foi mais um balde de água fria nas minhas más intenções, eles estavam se mostrando muito comportados, mas continuei pedalando e piscando com olhar malicioso para os rapazes a minha volta.

De repente eles começaram a se dispersar em pequenos grupos. Um casal estranho (ele estava com uma peruca black power ridícula e óculos estilo aviador) me chamou para acompanhá-los (haja boas intenções nesse lugar!), pois estavam fugindo dos ferozes policiais e dos jornalistas devoradores de gente pelada. Na hora achei um tanto estranho, mas depois pensei bem e fez sentido, pois há uma quantidade enorme de policiais e jornalistas queimando no inferno e aqueles ciclistas pareciam ser mesmo gente boa afinal.

Apesar daquela bondade toda já estar me enchendo o saco, resolvi continuar, pois adoro desafios e levar gente assim para o inferno conta horas extras na carteira de trabalho. Fui com o casal e outros ciclistas irritantemente gentis, passamos pela estação Paraíso e descemos sentido Parque Ibirapuera. As pessoas prestavam atenção em mim, acho que é porque eu estava de bicicleta, porque quando estou no meio dos carros ninguém nota. Ou talvez porque a essa altura eu já estava só de calcinha, brasileiros não estão acostumados a ver peitos de verdade, que não sejam de silicone ou que não estejam balançando na frente das câmeras para vender algum produto, alguma revista ou para deliciar os gringos na festa de carnaval.

Chegamos ao Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera. A praça estava lotada de ciclistas cada vez mais pelados e ousados, que gritavam de alegria e júbilo fazendo bunda-lelês. Fiquei mais animada, ali com certeza eu faria bons negócios. Mas então os jornalistas começaram a aparecer e a querer me fotografar, fiquei irada! Não se pode trabalhar sossegada nessas condições.

Pouco depois apareceu uma doidinha de cabelo rosa choque que tirou o sutiã e pintou nos peitos uma bicicleta roxa. Por causa do assédio imoral dos jornalistas (e eu já estava achando que estava em busca dos clientes errados), ela colou em mim para ter uma companhia feminina tão ousada quanto ela. Óbvio que as coisas pioraram e viramos alvos dos devoradores. Fugi da moça como o diabo foge da cruz (ele faz isso só para fazer cena, mas isso não vem ao caso).

Vários homens e rapazes já estavam peladões, balançando suas “partes íntimas” ao vento, contentes da vida. Pareciam mais crianças do que outra coisa, os pobrezinhos.  E eu já estava mais é querendo tirar a calcinha, mas nem uma diaba experiente como eu daria conta dos carniceiros da mídia corporativa. Então, já esquecendo do que tinha ido fazer ali, eu e outros ciclistas começamos a agitar a galera para continuarmos a peladada. Demorou mas saímos, e aí começou a diversão de verdade!

Na Avenida Brasil e na Avenida Rebouças, nos carros parados os pobres sofredores buzinavam, acenavam e apontavam a massa pelada, deliciados com aquela visão do paraíso (esse não o católico, claro). Chegando à Avenida Faria Lima tomei coragem e tirei a calcinha, hoje só de pensar eu fico com vergonha… Imagina, uma diaba com vergonha! Mas depois de ler trezentas vezes o Código de Direito Canônico até a gente fica assim, se sentindo culpadinho. Cruzes!

Estávamos perto do retorno da Faria Lima e paramos para erguer nossas bikes para o céu. Foi então que percebi ao meu lado um menino calado olhando insistentemente para as minhas “partes íntimas”. Olhei feio para o bichinho assanhado, ele fingiu que não entendeu, passou a mão nas suas próprias “partes íntimas” e saiu de fininho. Meu primeiro cliente! O dia já não estava mais perdido.

Pedalamos em direção aos Jardins, livres, leves e soltíssimos. A galera animada entrou no estacionamento do Shopping Iguatemi, tinham muitos carros parados na fila, mas dessa vez não deu para ver a reação dos enclausurados, pois os vidros escuros estavam bem fechados. Os seguranças ficaram assustados e alvoroçados a princípio, mas depois deram boas risadas.

Já na saída pela rua lateral, voltando para a Faria Lima, demos de cara com um carro da Rede Globo (mais um dos parceiros institucionais do inferno). Saiu de dentro um cinegrafista correndo atrás da gente, tentei me esconder atrás de um ciclista, mas não deu muito certo. Essa cena saiu na TV (pelo menos eu estava de costas), e foi assistindo isso depois que descobri que minha vagina é chamada de “partes íntimas”.

Então, finalmente, a polícia nos encontrou. Fomos não muito gentilmente escoltados pela Avenida Europa e depois pela Rua Augusta, muitos peladinhos como vieram ao mundo, uma festa! Passamos por várias lojas de carros importados gritando: “Menos carros! Mais Bicicletas!” (Diabo, estou perdida?). Tomamos banho de mangueira no meio da rua, presenciamos um idiota avançar com o carro sobre o outro, cantando pneus em frente à Igreja Nossa Senhora do Brasil (esse eu vou levar!) e, no começo da Augusta, uma senhora dentro de um carro me reconheceu e tomou o maior susto, deve estar tremendo até agora.

Seguimos pedalando na Augusta, viramos na Paulista e chegamos à Praça do Ciclista. Vesti minha roupa e levantei, junto com meus novos amigos, a bicicleta para o céu. Sim! Felicidade é pedalar pelado!

Alguns minutos depois as sirenes tocaram e o inferno voltou à terra na forma de policiais e agentes da CET, todos irritadíssimos com o olé que levaram dos pelados e averiguando se as genitálias alheias (ou partes íntimas, se preferirem) estavam à mostra. Mas já era tarde demais, todos estavam vestidos e contentes, para decepção das autoridades.

E eu voltei imediatamente ao trabalho. A peladada afinal rendeu bons contratos, com a mídia, os policiais, os marronzinhos da CET e outros funcionários públicos que atormentam o povo paulistano com sua obsessão obscena pelo Deus Automóvel.”

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[imagem: Carlos Alkmin]

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Relato enviado por Diaba

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3 Respostas to “A primeira Pedalada Pelada de uma Diaba”

  1. Pedalada Pelada – wnbr 2010 « Pedalante Says:

    […] A 1ª pedalada pelada de uma diaba […]

  2. Pedalada Pelada – wnbr 2010 « Blog de Ecologia Urbana Says:

    […] A 1ª pedalada pelada de uma diaba […]

  3. Sábado é dia de pedalar pelado e ir pro BotECO!! « FelizCidadeFeliz Says:

    […] A 1ª pedalada pelada de uma diaba […]

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