Companhia

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“(…) De alguma forma e a qualquer preço para chegares ao fim quando sentiste que não podias sair mais tu te sentaste encolhido no escuro Tendo percorrido umas vinte e cinco mil léguas no passado ou a grosso modo três vezes os limites que te cercam E nem uma única vez ultrapassaste o raio de uma légua de tua casa Tua casa Assim se sentava esperando ser perdoado o velho tocador de alaúde inspirador do primeiro soneto de Dante que talvez finalmente já se tenha reunido a algum grupo de bem-aventurados entoando louvores Ao qual seja como for aqui vai um adeus O lugar não tem janelas Quando abre os olhos como fazes algumas vezes ao expirar o ar a escuridão se atenua Da mesma forma tu que estás deitado no escuro já te sentaste uma vez encolhido ali teu corpo tendo te mostrado que não podia mais continuar Não mais sair para percorrer as pequenas trilhas afastadas e tortuosas e as pastagens vizinhas ora cheias da vida dos rebanhos ora desertas Com a sombra de teu pai a teu lado em suas velhas roupas de andarilho durante muito tempo e depois por muito tempo sozinho Somando passo após passo ao total sempre crescente dos que já tinham sido dados Parando aqui e ali com a cabeça baixa para apurar a contagem continuando em seguida novamente do nada Encolhido dessa maneira vês-te imaginando que não estás só quando sabes muito bem que nada aconteceu para tornar isso possível Não obstante o processo não se detém alimentado por assim dizer pela própria falta de sentido Não murmuras explicitamente sei que isto esta fadado a fracassar e no entanto persisto Não Pois o pronome na primeira pessoa do singular e posteriormente do plural nunca figurou em teu vocabulário Mas sem palavras tu te vês assim como verias um estranho que sofresse do mal de Hodgkin ou se o preferes do de Percival Pott surpreendido em oração De vez em quando deitas-te com uma facilidade inesperada As várias partes do corpo pôem-se a funcionar simultaneamente Os braços soltam os joelhos A cabeça se ergue as pernas começam a se esticar O tronco se inclina para trás E juntas essas e inúmeras outras continuam a agir de sua forma peculiar até atingirem seus respectivos limites e repousam juntas Deitado agora retomas tua fantasia a partir do momento em que o ato de deitar a interrompeu bruscamente E prossegues até que a operação oposta a interrompe bruscamente outra vez E assim no escuro ora encolhido ora distendido tu te esforças em vão E do mesmo modo que a mudança da posição antiga para a mais recente vai se tornando mais fácil e pronta com o tempo o mesmo acontece com a inversão da postura mais recente para a mais antiga Até que o alívio ocasional que era estar deitado se torna um hábito e finalmente a norma Tu que estás deitado de costas no escuro não te levantarás mais para cingir com os braços as pernas dobradas ou baixar a cabeça até que ela não possa baixar-se mais Com o rosto voltado para o alto vês que tua fantasia foi trabalho perdido até que finalmente percebes como as palavras estão chegando ao fim Com cada palavra inútil mais próxima da última E como também é inútil fantasia A fantasia de alguém fantasiando um outro contigo no escuro E como afinal o trabalho perdido e o silêncio são melhores E tu como sempre foste

Sozinho”

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Company, Samuel Beckett, 1979.

As últimas páginas de um livro emprestado, copiadas em um caderno em 1999.

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